quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Aprendendo a confiar

Sementes 003/01 – Aprendendo a confiar por Fernando Santana Rodrigues
Deixe-me dizer-lhe algo, não é fácil acreditar. Sim, apesar de sermos assim, seres que acreditam sempre, pois a despeito de todo o conhecimento que venhamos a possuir, toda e qualquer certeza que temos, seja empírica, cientifica, religiosa, no fim das contas, não passa de acreditarmos em algo ou alguém. O maior engano é achar que vemos, que temos, que sabemos. Atitude pouco humilde, quando pensamos que somos melhores, ou maiores, é justamente aí que precisamos voltar à casa do Oleiro e sermos quebrados.

 Mas como disse, não é fácil acreditar. Acreditar, por exemplo, que Deus existe. Tenho alguns amigos ateus, e um deles, grande amigo, aliás, certa vez quando almoçávamos, me olhou sincero nos olhos e disse “Fernando, eu gostaria muito de acreditar que Deus existe, mas não consigo”, confesso que isso me doeu muito, queria arrancar meu coração do peito pulsando e dar a ele, um coração pouco perfeito, porém que acreditasse ainda de maneira frágil num Deus que existe.

O fato, porém, é que até nós que dizemos acreditar em Deus muitas vezes vivemos como se ele não existisse, e Deus se tornou um artigo religioso, um nome na boca, uma desculpa para nossas falhas, debilidades, para a nossa incapacidade de escolher e arcar com as consequências de nossas escolhas. Quantas vezes eu e você, ateus ou não, fazemos as coisas desconsiderando a possibilidade de que haja um Deus, e que, de alguma maneira ele se importe com tudo isso. Em muitos casos Deus é para nós um pai ausente, que existe nominalmente, que colocou a gente no mundo, mas que nunca está por perto nos momentos mais decisivos da nossa vida.

Muita gente hoje em dia quer bênçãos de Deus, contudo não acreditam nele, não acreditam que ele exista de fato, não confiam nele, a ponto de agirem como se Deus realmente não existisse. Veja o que está escrito em Hebreus 11 : 6, “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam”. Percebe? O primeiro passo é ter uma convicção: não importa o que aconteça, existe um Deus, e ele não só me ama, mas deseja me amar. O desejo de amar é ainda antes do próprio amor, é o querer do querer. Deus nos ama antes, o que vem depois não desabona nem qualifica. Contudo, a gente pula a etapa do acreditar nele, do confiar nele, pois “existir” aqui neste texto de Hebreus não tem sentido somente de pensar que Deus existe e habita em algum recanto do universo, mas sim de acreditar em sua existência presente, em sua proximidade, e em uma confiança prévia nos seus atos. É confiar em Deus de olhos fechados. Confiar em Deus no escuro como o cego no caminho de Jericó e gritarmos “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim”.

É bem verdade que nós humanos somos seres de vontade, seres de desejo, como bem expôs Schopenhauer em seu tratado filosófico “O mundo como representação e vontade”. A nossa vontade é insaciável, desenfreada. Ora, se não conseguimos acreditar que Deus existe, eu diria a esse meu amigo ateu, acreditemos ao menos nessa vontade insaciável que nunca se satisfaz, nessa infelicidade angustiante de sempre querer. Acreditemos no vazio, já é um começo. Deus vem depois, tal como disse Aurélio Agostinho, “há dentro do homem um vazio do tamanho de Deus”. Há em nós essa vontade que nos governa, inflamada pelo capitalismo neoliberal, pelo consumismo, pela moda, por este século que não valoriza gente, todavia Jesus apontando para um horizonte melhor disse que o corpo vale mais que a roupa, e a vida vale mais que a comida. O homem vale mais do que o que ele come ou o que ele tem, só que ele não deseja ser, deseja possuir e o seu desejo anula a confiança em Deus, segue-se assim a angústia dos que fingem acreditar.

Você acredita mesmo em Deus? Tem certeza? Nos salmos 37 : 4 e 5 há um precioso ensinamento “Deleita-te também no Senhor, e te concederá os desejos do teu coração. Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e o mais ele fará”. Ora, a confiança que se deleita em Deus é aquela que tem certeza de que ele será capaz de nos surpreender. Mas sabe qual nosso grande problema? Primeiro, a gente nem acredita que Deus existe, pensamos que somos adultos demais, filosóficos demais, pós-graduados demais, para crendices, mitos, etc. Em segundo lugar, acreditamos que acreditamos em Deus, e isso é terrível, vamos à igreja, damos esmolas, fazemos cara de bonzinhos, gritamos, cantamos, oramos de mãos levantadas, e Deus nunca existiu para nós. Nunca acreditamos que ele fosse capaz de nos surpreender. Sim, a gente não confia em Deus, não confiamos nem mesmo que ele vai fazer algo por nós, quanto mais que ele será bom o bastante para fazer muito além do que pedimos ou pensamos, ou para além do “que deseja nosso coração”.

Somos uma geração orgulhosa, vaidosa, egoísta, e Deus vai nos quebrar com seu martelo, e haverá quebrantamento como nunca houve. E há diferença entre ser quebrado com o martelo do Oleiro e ser quebrado com o martelo do Juiz. Lutemos para estarmos nas mãos do Oleiro, pois Deus quer apenas nos ensinar uma lição de confiança. Enquanto eu e você ainda duvidamos, ouça!... crianças entram na sala do trono, assentam sobre o colo do Pai, e recebem da bondade de suas mãos, porque é do feitio, é da natureza de Deus (não precisamos forçar a barra) ser presenteador dos que o buscam (Hebreus 11 : 6).

Concorde ou discorde, mas você leu até aqui, agora responda a si mesmo: quem manda na sua vida? Se a sua resposta for “eu”, tome cuidado, desde que Descartes descobriu o “ego” (penso, logo existo), tudo virou principio de razão, e até mesmo aqueles que pensam pensar diferente, já estão pensando igual, porque só um reino há que subverta o já posto, e este vem de cima, por isso Jesus nos ensinou a orar para que se manifeste um novo reino, governado por uma nova vontade (Mateus 6 : 10), ora, a marca de um reino é a vontade do rei, se a vontade do rei não é obedecida, não há reino, de igual modo, para que o reino de Deus se manifeste em nós, nossa vontade precisa ceder ao governo da vontade dele (se é que de fato ele existe para nós).

É verdade, acabo de me lembrar dessa nossa lógica frustrante: se barbeiros existissem, não haveria mendigos cabeludos pelas ruas.

Cordialmente.

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