quinta-feira, 15 de julho de 2010

A paz não lhe divide



Os tempos estão se tornando tão confusos e estranhos que está difícil para você se encontrar em meio à quantidade de mensagens contraditórias. Você está sem referenciais, sem chão, sem canto. Não se identifica mais com nada, já pensou infinitas vezes que a culpa era sua e ficou procurando nos bolsos algum papel onde deveria estar escrita a sua sentença, “culpado”, mas não encontrou nada.

As pessoas que você pensou admirar estão estranhas. Elas falam de coisas questionáveis, obscuras. Elas falam de ouro e prata o tempo todo, como fossem ourives obcecados no trabalho de suas jóias, mas não produzem nada; querem apenas acumular para si a matéria-prima em forma bruta. E o que deixa você mais confuso é que elas sempre possuem uma tangente bíblica para se justificar, mesmo que muitas vezes tenham que se espremer aqui e ali pelos buracos estreitos da falta de contexto, mas eles sempre dão um jeito. E se dizem os ungidos, mesmo que auto-ungidos no lugar comum de suas frases de impacto pré-fabricadas, ou literalmente ungidos pelo óleo que eles mesmos colocam sobre suas cabeças, numa espécie de unção ruminada, que vem deles próprios, como fossem deuses em si, provedores de si, reis gloriosos.

E mesmo que eles brilhem como ouro, e cubram-se de ouro, aos seus olhos eles parecem como esterco, como alguém que resolveu banhar-se na fossa da própria casa, e se apresenta assim, fétido, imundo e horripilante, à frente de todos. E mais uma vez você fica confuso, culpado, mesmo sem encontrar a sentença nos bolsos, afinal você vê que ao mesmo tempo ele brilha como um sol ao meio dia. E você se questiona: qual será o meu problema? Será que eu não consigo perceber o lado bom das pessoas? O que está havendo comigo? Porque não consigo me identificar de forma alguma com esses que se dizem portadores da verdade?

E o fardo que estes homens entregam a você parece pesar bem mais que o fardo que Jesus prometeu que lhe daria. É quase impossível carregá-lo, porém você ainda insiste em continuar caminhando, mesmo que quase se arrastando, arfante, consumido. Parece que será impossível chegar ao final da jornada com tanto peso nas costas, e agora você começa a ver como aceitável aquela antiga idéia de desistir.

E de repente, então, você desiste.

Desiste desse sistema-esquema todo, e está só. Ninguém lhe dá apoio. Ao contrário, apedrejam-lhe duramente, mirando sua testa com vigor, as suas articulações, e a alma que eles não puderam tragar. São impiedosos, e chegam a espumar de ódio, como cães raivosos.

E mesmo diante de todo o sofrimento que tentam lhe causar, algo estala dentro de você sem nenhum aviso prévio. É um estalo crescente, a tornar-se uma explosão, e é também como um empurrão que lhe leva além das questões da lógica e lhe traz uma paz e leveza perturbadoras. Você então se cala, e aceita a dor como um passaporte para a revelação que se aproxima: agora é possível sentir-se plenamente livre e ainda cercado pelos laços de amor do Cristo. Já não existem os laços do passarinheiro, que lhe aprisionavam como um bibelô rentável na estante de uma firma de inverdades sólidas. Agora existe vida, e o fardo é de fato leve, conforme Ele prometeu.

E tornou-se fácil ver de fora como o dinheiro é a raiz de todos os males, que separou a maior parte dos homens que um dia propuseram caminhar juntos. Que jogou por água abaixo as visões e sonhos que poderiam ter sacudido nações. Que destruiu famílias inteiras, desvinculadas entre si como inimigos, sem referência alguma que não fosse Mamom como imagem de pai e mãe, a voz a ser obedecida. E quando o ouro acaba, acaba-se a vida. É o deus dos viventes que mamam nas tetas das potestades religiosas. E este leite cega, resseca os braços, e direciona seus pés para a linha do abismo. Mesmo que o buraco pareça distante agora, assim que passar seu efeito entorpecente percebê-lo-á logo ali à frente, requerente.

Eis a súplica abismal dos nossos dias, infelizmente perpetrada pela boca dos que se dizem anjos de luz. São falsários, são piratas, são contemporâneos. Estão imersos no espírito do século e não precisam mais da Bíblia. Eles estão acima dela. São donos de suas próprias revelações, ditas superiores, atuais. Não precisam mais de Deus.

Mas você agora é livre. Agora é livre. E a paz é o seu calibre, é o seu deleite. A paz não lhe divide.

No amor daquele que abriu os nossos olhos, o próprio Cristo ressurreto,

Lucas Souza
Vitória – ES, 07/05/2010

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