quinta-feira, 29 de abril de 2010

A CAMINHO DE DAMASCO




* Poema escrito pelo amigo Fernando Santana sobre minha pessoa.

De casa até o ponto de ônibus. Parado, esperava. Dez minutos, vinte minutos, trinta...
Há um lugar onde os homens podem ser livres de sua maior, mais repressora e mais agonizante prisão, este lugar é uma porta escondida que o leva por mundos diferentes, por épocas diferentes, para viver diferentes sensações.
Enquanto aguardava o ônibus refletia sobre as cenas do dia anterior, a discussão fora tão acirrada que suas forças pareciam minguadas, exauridas. O livro não mão era um volume de “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Tudo mudou num só momento e o que até então parecia controlado, tão arquitetado, virou pó. O ônibus veio. O que faria agora?
Deu o sinal e olhou à direita, a senhora queria entrar. Ela entrou, ele entrou.
Ao sentar no banco do ônibus abriu o livro, tencionou ler, não leu. As páginas viravam num sôfrego ir e vir, de um lado e do outro. A mente humana funciona assim, pensou ao perceber como as folhas ventavam sutilmente entre os dedos. A mente humana escorre pelas mãos. Tentou se lembrar de algum escritor que houvera dito algo parecido, não conseguiu. Fixou o olhar na rua, todas as imagens passavam deixando rastros de cor e luz, seus olhos mentiam de tal forma que pensava ver um jardim em meio ao concreto, como se a flor nascesse do chão, da pedra. A caminho do trabalho. Balançou a cabeça como se quisesse dispersar o pensamento, livrar-se dele, mas não conseguia fugir de sua mente. Lembrou-se de um poema de Drummond, bem a propósito. Como, meu Deus? Lembrou-se também do filme “A festa de Babette” que assistira alguns dias antes, daquela frase que tanto o dizia, que repetia, que não lhe largava.
É como se o homem soubesse de algo que fora dito em sussurros ao coração antes mesmo do mundo vir a ser, e ele não soubesse expressar de forma alguma. Sim, disse em silêncio, é isto “o artista nunca é pobre”...
O ônibus continuou seu percurso: saiu do bairro, entrou pela avenida, passou em frente do supermercado e seguiu para o Rudge Ramos. Ele olhava de dentro da condução e o mundo mudava, transfigurava. Lojas, mercados, bancos, carros, lanchonetes, bares: eles pensam em vender. E em comprar. A angústia não é senão a prerrogativa. Como sentir o mundo e não angustiar-se? Continuou fixo o olhar, no nada, estático, pela janela. Pela rua de duas mãos, os veículos iam e vinham. Com espanto, palidez e um profundo olhar introjetado, viu algo que jamais imaginara ver, ao menos não ali: alguns, talvez uns três, talvez quatro tanques de guerra passaram pela rua, pesados, com seus canhões, com sua imponência. Aflito, olhou de um lado a outro, contudo via nos rostos dos demais passageiros a indiferença cega. O barulho das engrenagens parecia-lhe a fúria de um cão raivoso, cheio de ódio. Novamente olhou de um lado a outro, sentia-se surdo e mudo: impotente, porém não estava cego. Os outros falavam entre si, ele estava assentado ao fundo e um pouco a frente havia um grupo de jovens em pé com mochilas nas costas, que contavam piadas para as moças assentadas nos bancos. Elas sorriam inocentes, com os dentes brancos e o olhar puro, à medida que inflavam o peito, baixo ao uniforme escolar, e levemente saltavam eretos os seios. Duas ou três. Talvez dezesseis ou dezessete. Os anos passam e a nossa geração não vale nada, foi o que lhe disse o profundo da mente. O ônibus parou e ele desceu, trazendo consigo o mundo na cabeça. Caminhando atravessou o farol, à esquerda a farmácia, as lojas, vindo em caminho contrário passava uma moça bonita, depois o pontilhão, atravessou outro farol, a rua, seguiu descendo a avenida Lions em direção a uma praça, indo pelo caminho que daria na avenida Vergueiro: no escritório: mas ainda não. Até lá haveria um longo caminho.
Ser livre não é tão simples assim, o senso de responsabilidade sufoca qualquer um, principalmente quando se pode ver o que os outros não vêem. Caberá ao artista o peso de revelar o mundo, não o que eles conhecem, mas aquele que lhes é desconhecido não por sua inacessibilidade, e sim por sua intangibilidade, imensidade e atemporalidade. A onisciência. O monomito. O monólito. Porém de que adianta se tudo é estar escravo do que se pensa? A liberdade é a utopia mais imbecil que move o homem: o cigarro na mão, a bebida, o prato cheio de comida, os olhos lacrimejantes de beleza, da pintura triste no retrato, da saudade tediosa, da droga inebriante, das religiões do mundo, dos jejuns, dos ápices transcendentais, das curas milagrosas, das fumaças de incenso, dos carros que passam, do dinheiro, do papel social. O homem é o escravo do homem. E o deus deste século deu na mão de cada individuo uma moeda e um passaporte. Quem não quer ir além? Quem não quer mostrar que sabe algo que os outros não sabem? Alguém disse que todos os animais são iguais, mas que alguns são mais iguais que os outros. A arte e o descontentamento andam juntos e a vida não passa de pura imitação. Persona.
Nunca levou tanto tempo para chegar até ao escritório, andou, andou e andou. Como se estivesse em uma escada rolante invertida. Como se escorregasse em gelo. Como se o deserto fosse um tapete infinito. Os carros passavam furiosos na avenida e o rapaz descia aflito pela calçada, tenso, rumo à praça que nunca chegava. O vazio estava escondido em cada som, em cada roda que girava com rapidez, em cada rosto macilento sob os volantes. O vazio escondido onde ninguém possa achá-lo.
A verdade movimenta os homens. A verdade subjetiva de cada um. Haja os sons quebrados, dos motores, das buzinas. E a mente do rapaz procurava pontos de contato com a realidade, com o sentido. Parecia ouvir ao longe, em meio ao caos de muitas vozes, o hino final do pássaro de fogo de Stravinsky. A verdade não estava em laboratórios, não podia ser testada, a verdade não era um experimento cientifico. Fincou os olhos no céu e o borrado das nuvens parecia-lhe a obra de um pintor, de um exímio poeta. Pensou: os céus manifestam a glória. Quem precisaria saber a verdade estando abaixo de um céu tão revelador?
O vento leve e sutil sobre o rosto nada anunciava. A árvore e as folhas que tremiam, nada. Os jovens na quadra da praça jogando futebol, nada. O sorveteiro tentando refrescar o dia, nada. A rua a caminho do fim, nada. O escritório da empresa, nada. Sempre ganhava dinheiro, felicidade nunca. Pois a felicidade nunca chegava, o escritório sim, um dia, outro dia, e outro ainda, enfim.
Ao entrar dentro do escritório em que trabalhava: cinco cadeiras, dois computadores, duas mesas, um balcão, um banheiro, uma cozinha adaptada, um frigobar, um microondas. Neste dia não comeria marmita, sentia-se quase feliz e quase triste, comeria um lanche com seus cinco reais que sobraram da condução. Vários cartazes, papéis, cartões, jornais, um tapete retangular azul no chão, um lavatório no banheiro, outro na cozinha, copos, garfos, facas, sujos: por lavar. Uma parede branca. O telefone tocou, ele atendeu.
O telefone tocou, ele atendeu.
O telefone tocou, ele atendeu.
Saiu, voltou, comemorou um grande negócio fechado, por cinco minutos.
O telefone tocou, ele atendeu.
Nunca estava sozinho, porém sempre sozinho. Algumas companhias são como vasos e flores postos na sala de estar: são belos, perfumados, risonhos, parecem contar piadas, mas não entendem a arte, nem a angústia do mundo, nem a vida. Apenas são. Seres capitalistas mais iguais que os outros. Alguns percebem, outros são percebidos. Por tudo que se possa acreditar é preciso dizer: não há diferença nenhuma entre a raça humana e a raça humana, senão um que percebe e o outro que é percebido.
Almoçaram juntos, e enquanto o moço sorria entre uma história e outra, assentado, ficou olhando estático à parede branca: insignificante plena de significado, cheia, vazia, imensa e pequena, infinitamente branca. Uma angústia lhe tomou o corpo, subiu e lhe enforcou o pescoço, subiu e lhe furou ambos os olhos: duas lágrimas surgiram, uma por cada um: a primeira desceu rápida, exausta, e a outra desceu lenta, sob um suspiro.
Um dia ele poderá casar, poderá ter filhos, poderá enriquecer, poderá comprar casas, poderá fazer sexo, poderá lamber barras de ouro, poderá comer em pratos finos, poderá degustar vinhos nobres, poderá. Contudo a parede branca nunca o deixará, para sempre.
A parede branca é o que fica, de tudo um pouco: a parede branca.
Correu para sua mesa, abriu a caixa de e-mails, tentou esquecer o fim de tudo, porém não podia, e a única frase que lhe servia de consolo (quem sabe até mesmo de constatação) era aquela de outrora: “o artista nunca é pobre”.

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