terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Quando você acorda


Por Lucas Souza em 05/06/2008, acessem: http://blogs.gospelmais.com.br/lucassouza/


O despertador lhe acorda como se houvesse um saco de trinta quilos de arroz sobre o seu peito. Sua vista está turva, suas pernas cansadas, e a responsabilidade de que só você pode fazer o que deve ser feito nessa manhã vale já por metade do peso do saco. A outra metade é referente ao seu cansaço, à sua noite mal dormida, às doze horas de trabalho do seu dia anterior.
Seu estômago reclama, sua cabeça reclama, as solas dos seus pés reclamam que você se levantou cedo demais, que na verdade você merecia dormir até que a fome do meio dia se tornasse inoportuna às duas da tarde, ao ponto de não lhe permitir continuar deitado. Mas agora que você já está de pé, que seu cérebro já trabalha além da letargia e a água meio quente meio fria do chuveiro elétrico lhe permite organizar as idéias, tudo já nem parece mais tão difícil. Enxuga-se rapidamente, veste-se com aquela roupa-uniforme de toda semana, corre pra cozinha e ai então se põe a preparar um misto, toma um suco de laranja, coloca uma maçã-embrulhada na bagagem para comer lá pelas dez horas e sai de casa apressado, já imaginando o trânsito.
Depois de andar cinco quilômetros em 20 minutos, você já se sente mais aliviado, porque percebe que conseguirá fazer o trajeto até o trabalho em pouco menos de uma hora. Contudo, logo à frente, dois carros se chocam num grande acidente sem vítimas, suficiente para parar o trânsito completamente. Buzinas soando, pessoas a xingar os motoristas barbeiros e outras mais a saírem dos veículos, bastante curiosas, para ver o estrago da cena.
Você está lá, dento do seu carro, imaginando o que deveria fazer naquela situação. Reclamar você já reclamou, com direito até soco no volante, como também buzinar, bater a cabeça no encosto do banco e dizer: “É hoje!”. Entretanto, você acaba por perceber que a sua ira de nada adiantou, já que tudo ficou parado da mesma forma, à espera da polícia, dos peritos, da perícia, e ficou óbvia, definitivamente, a sua impotência diante daquela avenida interrompida.
Você se põe então a pensar no dia, a olhar para o relógio. À sua direita você vê outras duas filas de carros parados. No seu colo, seu celular vibra ante a ligação do seu superior, que possivelmente questionará o seu atraso, mas você não atende. No banco de trás, uma pilha homérica de papéis que precisam ser analisados ainda essa semana. E do lado esquerdo, à sua janela, a vista mais incrível que você já viu.
Em meio ao caos você percebe que um sol cor de ouro reflete sua força sobre as águas transparentes do oceano. Você não se deu conta, mas a chuva do dia passado foi embora, amanhecendo um dia completo, azul, inesperado. Agora, sobre a colina que dá vista a toda a cidade duzentos metros abaixo, e a todo o mar que banha estas cercanias, você percebe a claridade das árvores, ainda molhadas, brilhando um verde irresistível, e uma multidão de pássaros que começam a passear de galho em galho, divertindo-se com os pingos d’água. Põe-se a abrir o vidro, e recebe uma brisa suavemente tranqüilizadora sobre o rosto. Você fecha então os olhos, sendo essa a sua melhor forma de guardar aquele quadro dentro da memória e, ao abri-los, faz uma oração silenciosa.
O seu coração começa a bater um pouco mais forte, e uma certeza de algo inexplicável toma conta de você. É o tipo de momento onde ninguém poderia perguntar sobre o que se está sentindo, visto que seria responder o indescritível. Torna-se então bem fácil ver a Deus naquela manhã, naquele instante onde tudo parecia lento, sobrecarregado, corrido, diante de toda a movimentação desesperada dos homens e assimilada por você, também homem.
Percebe que bastou olhar para um lugar onde ninguém olhava para mais facilmente encontrar sentido e força para continuar seguindo. Mesmo que seja inexplicável, havia um perscrutar de esperança latejando dentro do seu coração, ansiando por algo acima de toda aquela lancinante confusão.
Seus olhos pousam novamente sobre a mesma vista, e você percebe o fôlego de Deus sobre seus cabelos, como se uma mão lhe acariciasse a cabeça e lhe fizesse repousar num pasto verdejante, onde é possível reencontrar o fio da meada, o cálice que rolara encosta abaixo, a voz que há muito se calou.
De repente, porém, ecoa um som de várias buzinas que vêm por trás de você. Parado ainda, olha à sua frente e percebe que a pista já estava liberada, e que em seu relance da eternidade você se absteve da terra dos homens por alguns poucos minutos. Percebe que a vista do andar superior das coisas inexplicáveis deixou-lhe com a aparência de quem sonha, de quem espera, de quem sabe para onde vai, mesmo não indo e ouvindo as reclamações mecânicas dos carros.
O trânsito segue sua cadência lenta, e você continua nele, em direção ao trabalho. Olha para os lados e tudo o que agora vê são casas e prédios, carros, ônibus e pessoas apressadas. Finalmente você estaciona e já se sente cansado por quase uma hora e meia ao volante, logo cedo. Mas, ainda agora, você consegue perceber que o Eterno continua ali, sempre, dentro de você, e era você que passava sem percebê-lo. Corria tanto que esquecia o porquê do seu andar, sem lembrar que Ele está sempre desejando existir dentro do seu cotidiano assoberbado e repleto de vícios, simplesmente porque o cotidiano é seu, de você.
Exatamente assim, porque sei que Deus continua na mesma estância em que deixamos de vê-lo, habitando eterno no procurar do homem, mesmo quando feito de desassossego.

Nele, de onde recebemos a Graça que proscreve o medo,

Lucas Souza
05/06/2008

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