sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Saudades Eternas

Hoje o dia começou muito triste, é ruim quando você acorda ao som do despertador, mas é pior ainda quando acorda ao som do telefone com o aviso de que alguém próximo acaba de falecer.
Minha tia Penha sempre foi uma figura inusitada. Intensa em tudo que fez na vida, ela brigou muito, mas também chorou muito e riu muito com tudo que a vida lhe proporcionou.

Somos cristãos e como tal, temos de crer que hoje ele está muito melhor do que nós, mas fica uma intensa saudade dela que contagiava qualquer ambiente com sua presença.

Muitas saudades tia, que Deus lhe receba e que finalmente a paz seja teu descanso.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A PARÁBOLA DO PAI PRÓDIGO


* por Fernando Santana Rodrigues


Todos, assim cremos, já ouviram falar de uma história bem curiosa, e diferente digamos, sobre o filho de um rico fazendeiro, que enfastiado de tudo a sua volta, resolveu tentar a vida longe de casa. Talvez seja a realidade de muitos, senão de todos. Uma rápida olhadela em volta, convenceu-lhe da “necessidade” de uma mudança. O espelho e o seu sempre igual reflexo, as mesmas pessoas, as conversas sempre com teor amarelo, hepático, quando eram risos, não lhe havia graça alguma. A comida, o arroz branco, o cheiro do feijão, a sopa rala; coisas de doente. A calma serena e imperturbável de tudo. Ao homem, nada lhe basta, é fome atrás de fome, e sede depois de sede. Questão é que o menino foi ousado “Pai, dá-me a parte da herança que me cabe, estou indo embora”, o pai deixou morrer uma lágrima sorrateira pela face lívida, e ainda que o amava mais que a si mesmo, correu juntar alguns dinheiros, moedas de ouro e prata, jóias preciosas, atou-as em uma bolsa, chamou ao filho e deu-lhe o preço de sua morte. “Aqui é o que pedes, minha alma vai contigo!”. E foi...
No poente que o sol vertia, a tarde se ia para dar lugar à noite estrelada. O pai entrou a chorar mágoas... Acordou pela manhã, com olhos ressacados, chorosos, assentou-se em uma cadeira na varanda, olhando para o horizonte em que o filho se foi.
Assim aconteceu por muitos dias, repetidamente.
O filho conheceu terras longínquas, lugares estranhos, gente nova, risos bons, e também risos maliciosos. Enganaram-lhe, amigos que se fizeram inimigos, roubando muito da herança recebida, abandonaram-lhe diante da cidade assim que tudo perdeu, pelos centros comerciários vagava sem nada ao bolso. Quando a fome veio dar seu parecer, não aceitou desculpas, foi logo derrubando o jovem em fraquezas; ele viu os porcos que comiam, gulosamente, a tigela cheia de bolotas apetitosas, dobrou-se o menino, aproximou-se afastando um pouco os rivais, e comeu algumas, para dali mastigar e cuspir com nojo, havia mal gosto naquilo, não era comida de gente. Afastou-se com cansaço e sono, se deitou na relva. Serenava. Observou as várias estrelas pontilhando o imenso infinito “Meu pai tem muitos trabalhadores ao seu serviço, que comem pão a fartar, vou voltar e me oferecer como empregado”, e levantando o corpo com a alma, voltou pela estrada sombria, toda madrugada andou a procura de casa.
A idéia era voltar, não como filho exatamente, mas ao menos comer da mão de alguém bondoso.
O sol nasceu com força, cálido e silencioso. O pai já estava na varanda, não conseguira dormir, algo lhe dizia que havia filho que voltasse, e pôs-se a acreditar.
Viu ao longe a vaga imagem do que um dia foi seu filho, surrado, cheirando a porcos, descalço. Não podia crer em seus olhos, entrou casa adentro rapidamente, gritou à senhora que estava na cozinha “Nhô, é ele! É ele!”, e saiu com um sorriso imenso ao rosto, em pulinhos incontidos. Sessenta anos, a vida começava agora. Abriu largos os braços e foi de encontro ao moço. “Pai eu errei contra o céu e contra a terra, não sou digno de ti”, ao que o pai respondeu com um beijo quente à face suja do rapaz, abraçou-lhe como nunca antes “Um morto que revive, és meu filho!”. Mandou chamar todos os amigos, trocou as roupagens do filho, deu-lhe um anel de príncipe e sandálias. Comeram naquela tarde bezerro cevado.
Esta história foi contada há milhares de anos atrás, e a cada vez que a ouvimos é como se identificássemos nela algo do que somos, ou algo do que deveríamos ser. Dá-nos uma vontade tão grande de chorar e lançarmo-nos aos braços de um pai assim. Festejar e viver. Apenas isso, e como nunca antes.
Agora, um parênteses aqui entre nós, algo que não cala. O dinheiro que o filho gastou, era de quem? Se o filho usou metade da herança do pai (pois este tinha dois filhos), quanto será que ele gastou? E quanto o pai gastou para reabilitar o filho e lhe dar uma festa? Se o filho já havia usado sua parte da herança, o pai, quando morresse, lhe deixaria sem herança ou lhe daria outra?
Seu nome não foi riscado do testamento, um pai desse jamais faria isso. Só não entendo uma coisa, por que chamam esta parábola de “Filho Pródigo”, se na verdade tudo é do pai?
Ora, pródigo é o pai, que mesmo sabendo que o filho perderia tudo, deu e o deixou ir embora. Penso que ele sabia que nada valeria o intenso prazer de vê-lo voltar um dia.